sábado, 22 de setembro de 2007


Neste domingo, dia 23 de setembro, estréia a série HEROES na Record.

A história tem como protagonistas pessoas com poderes especiais, cujo DNA sofreu mutações e cujas vidas estão interligadas com uma missão coletiva.

Quem pode garantir que alguns mutantes já não estão entre nós?

Essa estréia possibilita aos telespectadores da tv aberta assistirem a uma série de qualidade antes só disponível para os endinheirados assinantes do cabo.

Heroes também tem como atrativo deslocamentos no espaço/tempo, o que faz com que o enredo sofra modificações radicais.

Os mais apressadinhos podem assistir à toda primeira temporada, encontrada nas locadoras, num box com 6 DVDs, incluindo extras.
Também nas lojas (139 reais), se você for um daqueles endinheirados...

sábado, 8 de setembro de 2007

Mais sobre os velhos...



O DRAMA DOS IDOSOS e-mail
Jorge Lage

Li num dos últimos Notícias de Chaves que os lares de idosos não deviam ter quartos individuais para, assim, poderem armazenar mais, dado haver muitos velhos à espera de vaga, um pouco por todo o lado. Do meu ponto de vista os que estão no outono da vida, e muito mais os que aguardam a morte na fragilidade do seu feixe de ossos, só em último recurso deviam recorrer aos lares, a que outros chamam de asilos ou depósitos de velhos.

Agora começo a perceber por que razão o Provedor da Misericórdia de Mirandela terá dito em público que o lar devia ser o último recurso. Achei de grande nobreza defender tal ideia por me parecer a mais acertada.
O que me parece é que um lar é um lar, como uma prisão é sempre uma prisão, por mais que se pintem. Sendo assim, tudo o que se faça para dar conforto aos que para lá são ‘empurrados’ nunca será de mais.
Há 40 anos só ouvia falar em asilos e eram muito poucos, era quase uma desonra, para gente de bem, deixar ir para lá os seus. Hoje pintaram-nos melhor e acrescentaram-lhes mais algum conforto mas não mudou a sua essência: despejar lá os velhos, à espera que eles morram.
Afinal porque é que há tanta gente encaminhada para os lares? Uns não têm família que possa cuidar deles, outros a família não os quer por perto e outros não podem cuidar dos seus. Acaso um filho poderá pagar tudo o que os pais fizeram por ele?
Recordo-me que amigos meus tinham a mãe viúva, que morava num recanto da aldeia e tinha por vizinha uma filha numa casa de frente, sem ninguém a seu cargo, porta com porta. A mãe não queria ir para o lar, os restantes filhos até estavam dispostos a pagar-lhe, para lhe dar uma tigela de sopa. Até era uma aldeia que tinha lá pessoas capazes de a apoiar (limpeza e fazer a comida) a troco de uma remuneração, mas a cultura dos novos depósitos de velhos a que chamam ‘lares’ falou mais alto.
Parece já não haver uma cultura/sentimento de família e os idosos quando deixam de trabalhar ou dão os primeiros sinais de senilidade são desalojados do seu ninho e atirados para os depósitos, mais ou menos confortáveis. Quem para lá vai, na sua maioria, sabe que vai ao encontro da morte.
Hoje, quando morrem, já não se vela o corpo dos idosos que partem e agora chegou a ideia ‘saloia’ às aldeias de fazer morgues em tudo o que é canto, quebrando uma tradição de solidariedade e de respeito pelo cadáver e pela memória de quem parte.
O que me parece, em muitos casos, se houvesse um maior apoio domiciliário a idosos, por parte do (des)governo central, muitos nunca entrariam nos lares e haveria, em muitas aldeias, quem quisesse prestar alguns cuidados a troco de uma remuneração. O problema maior é a insensibilidade do governo (ou dos políticos), que só dá apoios a quem vai para os depósitos de velhos. Desde que precisassem de cuidados, independentemente de quem os prestasse, devia ter direito a remuneração, nem que fosse menor que a dos lares. Afinal, não há amas para as crianças?
Depois, também há quem prefira pagar 300 contos num depósito dourado, que não deixa de ser depósito, em vez de dar 100 ou 120 a quem cuide do/a velhinho/a na sua residência.
Não quero com isto dizer que os lares não são necessários, bem pelo contrário (são um imenso bem), mas não deviam ser a regra, mas a excepção. Só em último recurso é que os idosos deviam ir para os lares. Devia ser encorajado, monetariamente, a permanência no seu meio familiar e social, socorrendo-se dos recursos locais.
O (des)governo e todos os que assim procedem estão a contribuir para uma sociedade mais desumanizada e injusta, desprovida de valores, para com aqueles que deram o melhor de si por nós. Mas, ironia das ironias, estamos a cavar o nosso destino que será ainda mais cruel que o dos idosos de hoje. É uma questão de anos e a maioria de nós será posta no depósito da morte para vivos-mortos.
Não se aflijam os que acham que os lares são poucos, porque dentro de uma década, vão surgir os primeiros indícios de que os lares irão sendo convertidos em alojamentos turísticos. Vai verificar-se um fenómeno como o da natalidade de hoje, só que mais retardado. Se o poder local e as IPSS fizessem pressão junto dos políticos no poder, estes seriam capazes de diversificar o apoio aos idosos, que devia ser mais de proximidade do que o actual apoio domiciliário pontual e oficial.

Publicado no Notícias de Chaves em 3/8/2007

Jorge Lage

Jorge, e aqueles que mandam os seus para esses depósitos pq não servem
mais aos seus propósitos? Ou ainda, pq querem apoderar-se de seus bens ou
economias, resultado de uma vida inteira de trabalho?
Se para esses, a justiça dos homens não fornece castigo, quero acreditar que
funcione a justiça divina, seja lá o que tal expressão signifique (independente do significado
que as religiões dão a ela...).
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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Velhice é pecado?


Hoje fui visitar minha tia numa "clínica geriátrica" (?)
Ou, sejamos menos hipócritas, num depósito de velhos...
Ela vinha sendo cuidada por um casal de sobrinhos, que delapidaram seu patrimônio e a jogaram naquele lugar.
O resto da família, certo de que ela estava sendo protegida pelo casal de sangüessugas, levou um susto.
Estamos, meu pai e eu, agilizando uma tentativa de obter sua guarda e tentar salvar, pelo menos, a pensão que poderá levá-la para um lugar melhor.

Estou muito triste por tê-la visto sem sua constante dignidade e imponência, apenas uma velhinha balbuciante e confusa, com marcas roxas nos braços, vestida com roupas prosaicas e desalinhadas, sem poder levantar da cadeira e querendo fugir dali para ir trabalhar.
Tirei uma foto dela no celular, consegui fazê-la sorrir por um pequeno momento.
Minha tia tão querida, que me ensinou as primeiras notas musicais e a tocar piano, que fazia um bolo delicioso de miolo amarelinho, que tentou me ensinar a costurar... quero te salvar do desprezo, da insensibilidade,
da solidão.
Me perdoa se não pude evitar teu sofrimento.

Atualizando em 17/11/14: Contratamos advogado, abrimos um processo
e perdemos, mais uma vez a Justiça acredita em mentirosos. Mas pelo menos foram obrigados a levá-la para um lugar com melhores instalações, ia visitá-la todas as semana, quando ficava deprimida ao vê-la definhar aos poucos. Uma simples gripe a hospitalizou, e complicações posteriores acabaram por levá-la a morrer neste hospital, e só nos avisaram quando ela já estava morta...Nem consegui ir ao seu enterro, estava com tanta raiva das pessoas que a abandonaram que preferi orar por ela em outro lugar. Mas como acredito na existência do karma, "o que é deles está guardado".

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Há 30 anos...


A poluição do Pólo

Benéfica para a economia gaúcha, a instalação do 3° Polo Petroquímico está sendo vista como uma inevitável catástrofe ao meio ambiente.
Para o ecologista José Lutzenberger, o interesse por trás do Programa de Proteção Ambiental da Copesul para a área é outro: "O programa vai proteger o Pólo, não o meio ambiente".

ZH - 31/08/1977

Ah, Lutz, que saudade de você...












segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Após 86 tentativas...



Após 86 ocorrências policiais, Fernando Oliveira Pereira, 27 anos, finalmente conseguiu matar a mulher, Adriana de Souza Rodrigues, 28.

O crime ocorreu sábado à noite, no bairro Vila Ipê, em Caxias do Sul, quando o criminoso chegou em casa bêbado.

Segundo testemunhas, durante discussão com a esposa, ele pegou uma faca e golpeou a mulher nas costas e no pescoço.

O filho do casal, de 4 meses, estava no colo da mãe e caiu no chão, sofrendo ferimentos leves.

O agressor foi levado para o presídio de Caxias do Sul. UFA! ATÉ QUE ENFIM!!!!!!!!!

Fonte: Correio do Povo - 13-08-07

Notícia patética, não sei se choro ou acho graça...
Uma criatura faz 86 queixas para a polícia, declarando agressões contínuas e nada foi feito de concreto para barrar, segurar ou enjaular o agressor desvairado?
Só podia ter acabado em morte mesmo... mais uma morte anunciada...
Pobre da criança, fruto da famigerada união desses dois seres. Com 4 meses, a mãe morta e o pai, finalmente, enclausurado.
Uma história real e trágica, narrada num cantinho de jornal.
Não está na primeira página, está fora do manual.

domingo, 3 de junho de 2007

Pedro e o Lobo


Sou professora de música, entre outras atividades que exerço.
Adoro ensinar música para, principalmente, crianças pequenas, que ainda estão abertas para novos sons, não totalmente seduzidas pela arte comercial. Meus alunos escutam Mozart, Bach, Björk, música grega, cantigas de roda e mantras, por exemplo.
Além das aulas particulares e das que dou em escolas, uma vez por mês, participo com um grupo de voluntários de uma "maratona" de oficinas para colégios públicos, os mais carentes. São profissionais de várias áreas que disponibilizam seu tempo e conhecimento para, durante um dia, movimentar a rotina de uma instituição de ensino.
Minha oficina, é claro, é a de música.
Em maio passado, estivemos num dos morros localizados na periferia da cidade. Uma escola bem organizada e limpa: foi o que primeiro me chamou a atenção. Depois, quando conheci os professores e a direção, vi que o quadro de funcionários era composto por gente que amava o que fazia. Os alunos, resistentes ao aprendizado, mas não vou aqui questionar o porquê desse quadro, não é o foco do meu relato.
Quando iniciei a oficina, onde ensino a montar uma "marimba d'água", os maiores foram caindo fora, dizendo "isso é coisa de criança..." Os que ficaram, quiseram participar, construir os instrumentos de percussão, cantar, dançar, mas tudo dentro do contexto deles, isto é, muito funk, rap, letras que eles não compreendiam a metade mas sabiam de cor.
Deixei a eles o exercício livre da sua cultura musical, pelo menos na primeira hora.
Então, chegou o momento da troca.
"Agora, vou mostrar a vocês a música que eu gosto. Espero que vocês ouçam e apreciem da mesma maneira que me portei com relação à música que me mostraram".
Toquei um CD de Pedro e o Lobo, de Sergei Prokofiev, a maravilhosa aventura contada pelos instrumentos. Cada personagem é representado por um tema, tocado por algum instrumento da orquestra: Pedrinho, pelas cordas; Fred, o passarinho, pela flauta transversal; Nestor, o pato, pelo oboé; Misha, o gato, pelo clarinete; o avô, pelo fagote; o lobo, pelas trompas e os caçadores, pelos tímpanos. A narradora vai conduzindo o fio da história e a orquestra apresentando o movimento dos personagens.
A maioria dos instrumentos era desconhecida para eles. Ficaram curiosos, aproximando-se do aparelho de som, puxando as cadeiras, sentando no chão, procurando identificar cada sonoridade. O atrativo maior era saber pelo som do instrumento qual o personagem que se manifestava no enredo: um jogo novo, totalmente coordenado pelos ouvidos e pela atenção.
Um dos garotos que mais perturbara o andamento da aula há pouco, aproximou-se e sentou no meu colo.
Ia dizendo o nome dos personagens no meu ouvido, à medida que surgiam e antes de serem identificados pela narradora, acertando todos! Ele conseguira decorar o nome de todos os instrumentos e associá-los corretamente a cada personagem. Isso é bastante raro de acontecer, demonstrando além de ótima memória, uma enorme musicalidade, numa criança de 6 ou 7 anos, bagunceira, mal-educada e agressiva, sendo totalmente dominada e fascinada pela obra de um russo, do qual ele nem suspeitava a existência!
Isso me deixou feliz, emocionada e satisfeita com a vida, o mundo e todos os seus problemas...
Ficamos sentados juntos até o final da história e quando acabou, ele disse, orgulhoso: "acertei tudo, hein, tia?"
E saiu correndo, porta afora.

sábado, 7 de abril de 2007



Chico Mendes e a Amazônia

Ontem terminou a minissérie televisiva Amazônia e foi triste rever a história de Chico Mendes, sua luta pelos seringueiros e sua morte pelas mãos de pistoleiros a mando dos fazendeiros queimadores da mata para criar gado.

Utilizei essa história, a da Amazônia entrelaçada com a de Chico Mendes, como tema do meu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social/Jornalismo, em 1990 e 17 anos depois, vejo que pouca coisa mudou e se mudou, foi para pior.. Pena que se

enrolaram demais nas duas fases iniciais da minissérie, na hora de falar sobre Chico Mendes, tiveram que correr contra o relógio.

Amazônia terminou nesta sexta-feira (6/4) dedicando apenas quatro capítulos à fase adulta de Chico Mendes - interpretado por Cássio Gabus Mendes com muito talento.

A minissérie que prometia contar a história do estado do Acre de Galvez a Chico Mendes, passou correndo pelos fatos contemporâneos. A história de luta do seringueiro, assassinado em 1988, não teve atenção devida na trama.

Uma pena, pois essa história ajuda a entender pq hoje o mundo todo fala, discute e ambiciona nossa floresta.

Chico Mendes, por Zuenir Ventura
Visão (Lisboa), série “Heróis e ícones do século”, 19/8/99.

O país que produziu alguns dos mais famosos mitos olímpicos e dionisíacos deste século - Pelé, Tom Jobim, Ayrton Senna, Ronaldinho - criou também um herói trágico e transformou-o no proto-mártir da causa ecológica, um homem que precisou morrer para ser conhecido em sua pátria, ele que já era, como escreveu “The New York Times”, “um símbolo de todo o planeta”.

De fato, o seringueiro Chico Mendes foi quem mobilizou não só o Brasil, mas também o mundo para a defesa da floresta amazônica, à qual acabaria dando sua vida. Certo de que estava marcado para morrer, ele não só denunciou a trama, como caiu que morreria em vão. “Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte fortaleceria nossa luta, até que valeria a pena. Mas ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero viver”.

Ele disse isso e pouco depois, às 18h45 do dia 22 de dezembro de 1988, foi assassinado, aos 44 anos, na porta da cozinha de sua casa em Xapuri, uma pequena cidade de cinco mil habitantes no estado amazônico do Acre. “Ele vinha com as mãos na cabeça, todo vermelho de sangue”, conto Ilzamar, que ouviu um estouro e escreveu para o marido. “Quando eu quis pegar no seu braço, ele caiu e ficou se debatendo. Aí vi que estava morrendo”.

Além de 18 perfurações no braço, ele fora atingido no peito direito por 42 grãos de chumbo de uma espigarda de caça. O autor confesso do tiro, Darci, era filho de Darli Alves da Silva, o fazendeiro mandante do crime.

Só então, e diante da grande repercussão internacional, é que o Brasil começou a desconfiar, cheio de culpa, de que tinha perdido o que se custa tanto a construir: um verdadeiro líder.

Como um Gandhi dos trópicos, Chico organizou pacificamente os seringueiros para lutar pela preservação da floresta, que vinha sendo derrubada no Acre desde a década de 70 para dar lugar às grandes pastagens de gado. O movimento de resistência usou uma tática simples e eficaz: o empate, que consistia em impedir os desmatamentos, colocando os seringueiros, seus filhos e mulheres, todos desarmados, entre os peões armados de serras e as árvores.

Hábil político e homem de diálogo, Chico conseguiu também desfazer uma inimizade histórica entre seringueiros e índios, que sob sua influência se aliaram numa grande frente conhecida pelo nome de Povos da Floresta. Condecorado pela ONU e internacionalmente pelas organizações internacionais de proteção ao meio ambiente, Chico demonstrou que era possível promover um desenvolvimento racional para a floresta amazônica, sem transformá-la em santuário intocável, mas também sem devastá-la.

Criou para isso o projeto de reservas extrativistas, espaços para garantir os direitos mínimos que os seringueiros nunca tiveram: escola, postos de saúde, melhores condições de distribuição de seus produtos, maior produtividade de garantia, segurança contra as
ameaças de expulsão dos latifundiários.

Chico sabia que precisava de aliados, não podia ficar isolado em Xapuri lutando contra poderosos interesses de fazendeiros e pecuaristas. Alguns antropólogos e representantes de entidades ambientalistas dos Estados Unidos e da Europa se encarregaram de projetá-lo no circuito internacional.

Em 1987, ele foi o primeiro brasileiro a receber o prêmio Global 500 das Nações Unidas, em Londres. No ano seguinte foi convidado a participar da reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Com o mesmo desenvolvimento com que andava nas ruas toscas de Xapuri ou pelas densas florestas amazônicas, Chico passou a se movimentar por cidades como Nova York, onde chegou a se hospedar no mesmo hotel em que estava o então presidente Ronald Reagan. Os convites de viagens se sucederam e sua causa ficou sendo conhecida no mundo.

Na reunião do Bird, ele convenceu os conselheiros do banco a suspender os financiamentos para a construção de uma grande rodovia no Acre, argumentando que sem as devidas preocupações ambientais a iniciativa seria um atentado à floresta, aos seringueiros e aos índios.

Se por um lado o prestígio externo reforçou a sua luta interna, por outro, pode ter contribuído para sua desgraça. Aplaudidas pelo Bird, pelo Bid e pelo Congresso americano, suas ideias enfrentaram a oposição violenta dos latifundiários, dos madeireiros e dos grandes projetos agropecuários que vivem do desmatamento desordenado da Amazônia.

A fama que ele alcançou junto a instituições e entidades estrangeiras, o seu carisma, tudo isso aliado aos incômodos empates que organizava em Xapuri, deve ter dado a seus inimigos a certeza de que a única maneira de barrar sua ação catalisadora era a morte.

Por isso ele sabia que ia ser assassinado e denunciou incansavelmente a ameaça. “Não quero flores no meu enterro, pois sei que vão arrancá-las da floresta”, escreveu no dia 5 de dezembro numa mensagem-despedida.

“Quero apenas que meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagunços, sob a proteção da Polícia Federal do Acre e que, de 1975 para cá, já mataram mais de 50 pessoas”.

Poucas vezes a polícia brasileira conto com uma lista tão completa de acusados, acomodada pela própria vítima. Nem isso, porém, serviu para impedir a morte anunciada.

Chico Mendes acertou quando anunciou que ia ser morto, mas errou ao achar que sua morte poderia ser inútil. Se ela não salvou a Amazônia, serviu pelo menos para intensificar o debate planetário sobre o destino da região. E mais: esse assassinato - antecedido por dezenas de execuções de outros líderes religiosos - servirá para denunciar que em um país rico e extenso ainda se mata por questões de terra.

Aquele estouro que Ilzamar ouviu chegou ao mundo todo. Nunca um tiro dado no Brasil ecoou tão longe.

Mas... existe um outro olhar...

"Os índios são defensores da floresta há milênios, embora não recebam prêmios na ONU, nem monumentos no centro da capital acreana, muito menos papel de destaque numa minissérie sobre a Amazônia. Galvez, Plácido de Castro e Chico Mendes - o branco sente a necessidade de criar heróis para amenizar-lhe a consciência acusadora e para projetarem-se politicamente sobre outros brancos. Índio nunca vira mocinho em história branca."